sábado, 26 de novembro de 2011

  XI - DE NOÚS A HERMES


D'us, a eternidade, o mundo, o tempo, o futuro. D'us fez a Eternidade, a Eternidade fez o mundo, o mundo fez o tempo, o tempo fez o futuro. De D'us, a essência por assim dizer é (o bem, o belo, a beatitude) a sabedoria; da eternidade é a identidade; do mundo é a Boa ordem; do tempo é a mudança; do futuro é a vida e a morte. D'us tem por energia o intelecto e a alma; a Eternidade a duração e a imortalidade; o mundo as apocatástases e as apocatástases oposto; o tempo o crescimento e o decrescimento; o futuro e qualidade e a quantidade. Assim a Eternidade está em D'us; o mundo na Eternidade, o tempo no mundo, o futuro no tempo. E enquanto a Eternidade se mantém imóvel em D'us, o mundo está em movimento na Eternidade o tempo se cumpre no mundo e o futuros e desenrola no tempo D'us é, portanto a fonte das coisas, a Eternidade lhes é essência e o mundo a matéria. A Eternidade é a Potência de Deus, e a obra da Eternidade é o mundo, que não tem começo, mas que é continuamente no futuro pela ação da Eternidade. Eis porque tudo o que está nesse mundo não perecerá jamais (pois a Eternidade é imperecível nem será destruído, porque o mundo está totalmente envolvido pela Eternidade). - Mas o que é a Sabedoria de D'us? - É o bem e o belo e a beatitude e a virtude total da Eternidade. A Eternidade faz do mundo uma ordem, introduzindo a imortalidade e a duração na matéria. Com efeito, o devir da matéria depende da Eternidade, como a Eternidade depende de D'us. O devir e o tempo se encontram no céu e na terra, mas possuem duas naturezas diferentes: no céu não se transformam são imperecíveis, na terra são mutáveis e perecíveis. E da Eternidade D'us é a alma, do mundo é a Eternidade, da terra é o céu. D'us está no intelecto, o intelecto na alma, a alma na matéria: e todas essas coisas subsistem, através da Eternidade. Todo esse grande corpo no qual se acham contidos os corpos, uma alma plena de intelecto e de D'us o completa no interior e o envolve no exterior, vivificando o Todo no exterior desse vasto e perfeito vivente que é o mundo, no interior de todos os viventes e no alto, no céu dura sem mudar, idêntica a si mesma, embora embaixo, na terra, produza as variações do devir. É a Eternidade que mantém coeso todo esse mundo, por meio da necessidade, ou da providência, ou da natureza, ou de seja lá o que forque se possa pensar hoje ou depois. E tudo que produz pela sua atividade, é D'us, e a energia de D'us, força insuperável, e à qual não se podem comparar as coisas humanas ou divinas. Por esta razão, ó Hermes, nunca vá pensar que alguma das coisas daqui de baixo ou decima são semelhantes a D'us, pois te afastarás da verdade: efetivamente nada há de semelhante ao Dissemelhante, Só e único. E não pense também que ele dá parte de sua potência seja lá a quem for. Existe depois dele algum outro criador da vida, da imortalidade, da transformação? E ele que poderá fazer além de criar? Pois D'us não é inativo, de outra forma o Universo também seria inativo: pois tudo é pleno de D'us. Mas, de fato, não se verifica inatividade em parte alguma, nem no mundo, nem em qualquer outro ser que seja. Inatividade é uma palavra vazia, relativamente àquele que criou e àquele que vem a ser.  Ora é necessário que tudo venha a ser, e sempre, segundo a influência própria a cada lugar. Pois aquele que cria está em todos os seres, não permanece fixado em um deles e não criou um apenas, mas todos: pois sendo uma força sempre atuante não tira sua suficiência dos seres criados, mas são os seres criados que lhe são submissos. Contempla por mim o mundo que se oferece à tua visão e considera atentamente sua bondade: esse corpo sem mácula que nada ultrapassem antiguidade, eternamente na força da idade e jovem, e sempre mais florescente! Vê também a hierarquia dos sete céus formados em boa ordem segundo uma disposição eterna, preenchendo cada um por um curso diferente a eternidade. Vê todas as coisas repletas de luz sem que haja fogo em parte alguma: pois a amizade e combinação dos contrários e dos dissemelhantes tornou-se luz, repleta embaixo pela energia do deus que é gerador de todo bem, chefe e condutor de toda a boa ordem dos sete céus. Veja a lua que corre à frente de todos esses céus, instrumento da vida física, transformando a matéria daqui de baixo. Veja a terra, estabelecida no meio do Todo, bem estabelecida como fundamento deste mundo tão belo, nutriz dos seres terrestres. Considera ainda quão grande é a multiplicidade dos viventes imortais, imensa aquela dos mortais e veja mediatriz entre mortais e imortais, a lua que prossegue sua ronda. Tudo está cheio de alma, todos os seres estão em movimento, uns no céu, outros na terra e nem os que devem estar à esquerda seguem à direita e nem aqueles que devem estar à direita seguem à esquerda, nem os que devem estar no alto estão embaixo, nem os que devem estar embaixo estão no alto. Que todos esses seres foram produzidos, caríssimo Hermes, não precisas ouvir de minha boca: esses são come feitos os corpos, possuem uma alma, e são movidos. Ora todos esses corpos não podem convergir para um único ser sem alguém que os reúna. É preciso, portanto que esse alguém exista e seja absolutamente único. Pois, como os movimentos são diversos e múltiplos e como os corpos são dissemelhantes, como, portanto, a velocidade total imposta a esses corpos é única, não podem existir dois ou mais criadores: realmente, quando se é múltiplo não se mantém a unidade da ordem e não se pode ser múltiplo sem que resulte ciúme relativamente ao mais possante. E eu te direi, suponha que haja um segundo criador para os viventes mutáveis e mortais, seria tomado então do desejo de criar também os imortais e da mesma forma o criador dos imortais quereria criar os mortais. E mais ainda, suponha que existam dois enquanto que a matéria é uma e a alma uma, a qual dos dois pertencerá o cuidado de efetuar a criação? E se o cuidado pertence a ambos, qual dos dois tomará maior parte nele? Pensam que todo corpo vivente é composto de matéria e de alma, tanto o imortal quanto o mortal, tanto o racional quanto o irracional. Pois todos os corpos viventes são animados e os nãos viventes são simplesmente a matéria que subsiste à parte nela mesma, deposta que está entre as mãos do criador e é então o criador dos imortais que é o autor da vida: como não criaria também os outros viventes que não imortais? Que existe alguém que criou estas coisas é evidente. E agora está absolutamente manifesta a sua unicidade: na verdade a alma é uma, avida é uma, a matéria é uma. Qual é então esse criador? Quem pode ser ele senão o único D'us? A quem seria conveniente criar viventes providos de alma, se não a D'us somente? D'us é,
Portanto único. É coisa evidentemente visível! Reconheceste que o mundo é sempre um, o sol um, a lua uma, a atividade divina uma, e queres que D'us seja membro de uma série? É D'us, portanto, que sozinho criou as coisas. E o que há de maravilhoso no fato de D'us ter criado ao mesmo tempo: a vida, a imortalidade, as transformações, se fazes, também, tantas coisas diversas? Pois vês, falas, escutas, cheiras, tocas, andas, pensas, respiras, e não é um outro que fala, que escuta, um outro que cheira, um outro que anda, um outro que pensa e um outro que respira, mas é um único ser que faz tudo isto. E as atividades divinas também não podem ser separadas de D'us. Pois se paras de fazer estes atos, não és mais um vivente e o mesmo se dá com D'us, pois se cessa de fazê-lo, coisa ímpia de se dizer, não é mais D'us. Pois se demonstraste que não podes existir sem alguma atividade, quanto mais D'us! Com efeito, se existe alguma coisa que não crie D'us,
Coisa ímpia de se dizer é imperfeito; e se D'us não é inativo, mas contrariamente perfeito, é porque criou todas as coisas. Se quiseres, ó Hermes, prestar-me um pouco de atenção, conceberás que D'us possui apenas uma obra, é fazer com que as coisas venham a ser, oque vem, o que veio há um momento, o que virá no futuro. É isto, caríssimo, que é a vida, que é o belo, que é o bem, é isto que é D'us. E se quiseres compreendê-lo pela tua própria experiência, percebe oque se passa em ti quando queres engendrar. Verdadeiramente quando se trata de D'us, o ato de engendrar não é nem um pouco semelhante: D'us seguramente não encontra prazer sensível e não possui nenhum colaborador. Com efeito, como opera sozinho, sempre é imanente à sua obra, sendo ele mesmo o que ele produz. Pois se suas criaturas fossem separadas dele, dobrar-se-iam e pereceriam necessariamente, não mais possuindo vida. Mas, como tudo é vivente e como a vida também é uma, D'us é certamente único. Por outro lado, já que tudo é vivo, os seres do céu e os da terra, e como a vida é única em todos, é produzida por D'us e é ela que é D'us, é, portanto pela ação de Deus que todas as coisas vêm a ser e a vida é a união do intelecto e da alma. Quanto à morte, ela não é a destruição dos elementos reunidos, mas ruptura da união.Assim como a Eternidade é a imagem de D'us, o mundo imagem da Eternidade, o Sol imagem do mundo, o ser humano é a imagem do Sol. Quanto à transformação, é chamada morte porque o corpo se dissolve enquanto a vida se dissipa no invisível. Ora os seres que se dissolvem desta maneira, meu caríssimo Hermes, e o mundo, declaram que se transformam pelo fato de que, a cada dia, uma parte do mundo vai para o invisível, mas não que se dissolvam. E eis o que são as paixões do mundo: rotações e desaparições. Ora a rotação é revolução, e desaparição é renovação.  Destarte o mundo é omniforme, não que possua as formas abriga da sem si, é em si mesmo que ele se transforma. E sendo então o mundo omniforme, o que pode ser aquele que o criou? Não digamos que sejas em forma! Por outro lado, se também é omniforme, é semelhante ao mundo. Mas e se ele possui apenas uma forma? Será sob este ponto de vista inferior ao mundo. Que diremos que ele é para não deixar o discurso sem término? Pois nada é inconcluso na nossa concepção de D'us. D'us possui apenas uma figura - se alguma figura é própria a D'us - que não se oferece aos olhos corporais - incorpórea, e desvela todas as formas por meio do corpo. E não te espantes que possa existir uma figura incorpórea, ela existe efetivamente, como a figura da palavra. E da mesma forma, nas pinturas, veem-se cimos de montanhas se elevando muito acima, quando na verdade são chatas e lisas. Examina ainda o que acabo de te dizer de um ponto de vista mais ousado, mas também mais verdadeiro. Da mesma forma que o ser humano não pode existir sem a vida, D'us também não o pode sem produzir o bem. É isto precisamente que é a vida e movimento de D'us, o fato de mover todos os seres e de lhes dar a vida. Certos termos devem ser tomados em uma acepção particular, considera, por exemplo, o seguinte argumento. Todos os seres estão em D'us, mas não estão colocados como em um lugar, (na verdade o lugar é um corpo, e um corpo imóvel, e o que está no lugar não possui movimento): mas é de outra maneira que estão colocados na faculdade incorpórea de representação. Concebe então aquele que contém todos os seres e compreende que não há nada que possa circunscrever o incorpóreo, nem que seja mais rápido e possante que ele, de fato é o incorpóreo que é incircunscritível, mais rápido e possante que todos os seres. Julga-o também da maneira seguinte, segundo os teus critérios. Ordena à tua alma que esteja na Índia e eis que, mais rápida que tua ordem lá estará não por ter viajado de um local e outro, mas como se já estivesse lá. Ordena que voe para o céu, e não necessitará a mesma de asas: nada pode impedi-la, nem o fogo do sol, nem o éter, nem a revolução do céu, nem os corpos dos outros astros: mas, cortando todos os espaços, subirá em seu voo até ao último dos corpos. E se quiseres passar a abóbada do universo e contemplar o que existe além dela (se é que algo existe depois dela): tu o podes.  Vês que potência, que velocidade possui! E se podes tudo isto, D'us não o poderia? É desta maneira então que deves conceber D'us: tudo que é contido nele como pensamentos, o mundo, ele mesmo, o Todo. Senão te fazes igual a D'us, não podes compreender a D'us: pois os dessemelhantes só são inteligíveis ao semelhante. Faça-te crescer até corresponder à grandeza sem medida, por um salto que te libere de todo corpo; eleva-te acima de todo tempo, torna-te o Aíòn: então compreenderás D'us. Sabendo que não é impossível para ti, estima o imortal e capaz de tudo compreender, toda arte, toda ciência, o caráter de todo ser vivente. Sobe acima de toda altura, desce mais que toda profundidade, reúna em ti as sensações de todo o criado, do fogo e da água, do seco e do úmido, imaginando que estás ao mesmo tempo na terra, no mar, no céu e que ainda não nasceste e que estás no ventre materno, que és adolescente, ancião, que estás morto e que estás além da morte. Alcança-se com o pensamento essas coisas ao mesmo tempo: tempo, lugar, substância, qualidade, quantidade, podes compreender D'us. Mas se manténs tua alma aprisionada no corpo, se a abaixas e dizes: "Eu não concebo nada, eu não posso, tenho medo do mar, não posso subir ao céu; não sei o que sou não sei o que serei" que queres com D'us? Pois não podes alcançar com o pensamento nenhuma das coisas belas e boas, tanto amas teu corpo e és malvado. O vício supremo, indubitavelmente, é não conhecer o divino. Contrariamente, ser capaz de conhecer, e ter tido a vontade e a firme esperança, é a via direta que conduz ao Bem e uma via fácil. Durante tua marcha, ele virá em toda parte e teu encontro, em todo lugar se oferecerá à tua vista, mesmo no lugar e na hora em que não o esperas, estejas em vigília ou em repouso, navegues ou caminhes, de noite ou de dia, falando ou calando-te: pois nada existe que ele não seja. Dirás agora: "D'us é invisível?"
Não diga isto, o que é mais manifesto que D'us? Ele criou tudo para que o vejas através de todos os seres. Eis o bem de D'us, o poder miraculoso de D'us de se manifestar através de todos os seres. Pois nada há de invisível mesmo entre os incorpóreos.
O intelecto se torna visível no ato de pensar, D'us no ato de criar.

Livro: Corpus Hermeticum
Autor: Hermes Trismegisto

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